sábado, 5 de outubro de 2013

Acto III

Sala, algures num século, podendo ser um qualquer pois foi repetida em todos. Dois cadeirões.

Eu: Veio-me de novo a pergunta.
Tu: Que pergunta?
Eu: A do inicio. A que fiz a mim mesmo no dia em que tomei uma decisão.
Tu: Ah, já me lembro! Pelo que me contaste, acho que...
Eu: Sim! Mas de nada vale pensar nela, e no que ela me fez observar. Mas achei curioso...
Tu: Curioso?
Eu: Sim. A maneira como ela lenta e sensualmente se alojou na minha mente. Um pouco como da outra vez, sabes? Suave mas definitiva e em jeito de finalizar, como um gato que caça. Um gato pardo neste caso. Mas antes foi diferente...
Tu: Imagino... Estavas bastante perdido, não estavas?
Eu: Imagina um balcão de café. Lembras-te, onde trabalhava?
Tu: Claro!
Eu: Imagina agora várias pessoas, pessoas que a ti simplesmente não te diziam nada. Eram apenas cápsulas ambulantes que por ali passeavam, apenas pensavam na sobrevivência e em dinheiro, e em casar, ter filhos, enfim, o sonho de qualquer pessoa que se insira nesta sociedade doente e em morte. E depois, andava por lá eu, um peixe fora de água, um ser fora de vida, a ser lentamente puxado para o paradigma da humanidade: viver apenas para ter dinheiro para sobreviver e esporadicamente fugir dessa prisão para mais tarde lá voltar. Mas cada vez mais próximo de chegar ao mesmo patamar deles.
Tu: Que quase chegaste, se bem me lembro.
Eu: Sim, mas não posso contar. Isso ainda está a acontecer para ele. Não para mim, mas para ele sim. Eu já passei por isso, agora falta ele. Falta ele sofrer para depois vir a bonança.
Tu: Qual das bonanças?
Eu: A de te ter conhecido, principalmente. E ter percebido que afinal existias e não eras um produto fragmentado dos meus sonhos e das minhas esperanças.
Tu: E a outra bonança?
Eu: Essa, não a posso dizer. Spoilers sweetie, já dizia outra pessoa.
Tu: Mas contaste uma delas. Não achas um bocado ilógico contares uma e a outra deixares em branco?
Eu: A mais importante de todas, é ao mesmo tempo a que lhe vai dar alento. Pois ele sabe, tal como eu sempre soube, que virias a caminho, mais tarde ou mais cedo.
Tu: Esperavas-me?
Eu: Mais do que tudo...

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